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A PARTIDA DO REI E DA PIROGA DE CRISTAL

terça-feira, 22 de agosto de 2017

(ou como você pode morrer como herói ou viver sendo gênio na França.)

Na velha Hollywood era mais fundamental ter uma amplitude de talentos para se manter em destaque. Ter apenas um era bom, mas quanto mais versátil você fosse, melhor para o rumo desejado de sua carreira. Poucos foram completos como Lewis. Cantar, dançar, atuar, escrever, dirigir e tocar um instrumento. Saber ao menos duas ou três dessas de forma competente era essencial. Frank Sinatra, por exemplo, cantava e atuava. Eventualmente aprendeu a dançar um pouco com Gene Kelly, mas somente o básico para um filme.

Lewis foi a pessoa mais talentosa e engraçada de Hollywood por mais de três décadas, com ou sem principal seu parceiro de cena Dean Martin. O humor físico feito de forma autêntica, uma vitalidade que não se vê mais. É o Professor Aloprado original, que se recusou a aparecer no remake de Eddie Murphy nos anos 90 por achar que o roteiro tinha muitas piadas com flatulência. O que não o impediu de participar de um filme do Leandro Hassum poucos anos atrás. Após o auge teve destaque não tão reconhecido em o Rei da Comédia e Funny Bones, com papéis mais dramáticos.

Os filmes caíram de qualidade ao longos das décadas e seu nome virou motivo de piada ao longo dos anos por ser sinônimo de péssima produção, sendo somente um sucesso na França, onde ele é considerado um gênio, mesmo com os filmes ruins, algo que foi eternizado de certa forma por Genius In France, de “Weird” Al Yankovic. Com isso, seu outro grande destaque ao longo das décadas foi a filantropia. Ele foi o criador do Teleton em 1966, devido a seu filho ter nascido com distrofia muscular, e seu formato de ficar muitas horas seguidas no ar com apresentações enquanto arrecada dinheiro para instituições de caridade, sua causa principal.

O problema é que polêmicas eram algo forte nele. Arranjou problemas com mulheres mais de uma vez afirmando que elas não são engraçadas o bastante e deviam ficar em casa. Já ameaçou gente, ameaçou até Joan Rivers por ela criticar a forma agressiva que Lewis faz sua caridade. A fama no geral é de ser uma pessoa questionável nos bastidores. Sem falar em O Dia Que O Palhaço Chorou, um filme que até ele tem vergonha e nunca foi lançado, um drama absurdo que causa espanto em qualquer um que lê a sinopse, é mais de partir o coração que A Vida é Bela.

Ao mesmo tempo, foi de partir o coração vê-lo ser chutado do que criou, de seu próprio Teleton e ainda assim seguir sua tradição de no final cantar You’ll Never Walk Alone, dessa vez aos prantos. 


Agora que está morto, tudo de polêmica e que foi dito de crítica virará homenagens, pois como Neil Strauss disse em Fama e Loucura, todo mundo te ama quando você está morto, pois você não tem como causar mais problemas. Que sirva de inspiração pra futuras gerações, pois sua comédia transcendeu a maior barreira de todas para o gênero: o tempo.

Enquanto isso, poucos dias antes, uma das maiores lendas do humorismo nacional, alguém que curiosamente é tão completo quanto Lewis e consta como figura importante da biografia de pessoas influentes como Erasmo Carlos, Carlos Imperial e Chacrinha. Uma pessoa com um carreira ampla, brilhante e respeitável a ponto de ser livre de críticas mesmo fazendo parte do Zorra Total no tempo que todo mundo criticava (e aos poucos sentem falta, querendo os bordões de volta ao invés do que se chama hoje em dia de crítica social foda, mas isso é outra história). Precisamos falar sobre Paulo Silvino.

Para nós, de gerações mais recentes, é muito fácil resumir tudo a dizer que era a pessoa que fazia o Severino no Zorra Total e repetir os saudosos bordões. Ou então lembrar da Lenda da Piroga de Cristal, que faz parte do título desse memorial. Mas a história é muito mais rica que isso, e será resumida a partir daqui.

Paulo Silvino surgiu em uma família talentosa, seu pai, Silvino Neto era um comediante famoso de sua época. Fez parte do movimento precursor do rock no Brasil com Carlos Imperial no final dos anos 50 fingindo ser um astro do rock de forma altamente convincente, cantando e tocando piano tal qual Little Richard. Com Imperial, Silvino ainda fez alguns filmes na época e já na época seu potencial para a comédia era notável. É digno de nota também o fato de que ele escrevia contos eróticos ainda nos anos 50 que corriam de mão em mão, assinando como Brigitte Bijou, tendo Erasmo Carlos como um de seus maiores fãs.

Teve cinquenta anos de TV Globo e algumas passagens por outras emissoras. É mais lembrado pelo Severino, mas os personagens são inúmeros. Houve o Olegário Carnaval na Escolinha do Barulho (e outros programas), houve sua passagem pela Escolinha do Professor Raimundo, esteve na Escolinha do Golias e na Praça É Nossa. Os mais antigos se lembrarão dele no Viva o Gordo, fazendo entre outras coisas o Jornal do Gordo. Chegou a apresentar o Cassino do Chacrinha enquanto o Velho Guerreiro esteve doente.


Eu gostaria de ter mais informações sobre ele, mas não há uma biografia disponível, o máximo que temos são fragmentos. Nem sei se ele foi devidamente homenageado pelo programa para o qual ele deu tanta audiência e garantiu seu espaço entre as novas gerações. Nos tempos de Chico Anysio era meio programa de homenagem, hoje, com toda a limpeza feita no programa, fica a dúvida no ar.

Em que pese o fato de que ele sempre foi competente no seu ofício de ser engraçado, sempre foi uma pessoa tranquila, que nunca se envolveu em polêmica, há a sensação de que ele não teve a atenção e apreciação merecidas por todo o seu trabalho. O que é triste de uma certa forma. Com isso, ficam os bordões. Como era grande...


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