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BIENAL DO LIVRO | EXPERIÊNCIA E EXPECTATIVA

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Pra mim a Bienal é algo tão natural para se encher de expectativas que sempre me espanto quando alguém me diz que nunca foi. Mas até aí eu vou em todas desde 1997, o que é muito tempo, tem gente que nem tinha nascido na época. Estou aqui hoje pra falar da importância desse evento e umas dicas básicas de sobrevivência em meio àquela selva de gente, papel e fãs de youtubers que fingiram que escreveram um livro.

Bienal do Livro. Rio Centro. Tradicionalmente duas semanas antes do Rock in Rio. Lugar onde as pessoas vão expandir sua cultura, conhecer autores, ter uma tarde agradável. No geral pode até ser assim, mas o buraco pode ser mais embaixo dependendo de seus objetivos por lá.

Muitas pessoas reclamam que os livros estão caros lá, mas é o tipo de pessoa que vai na Saraiva da Bienal pra comprar livros. Se Saraiva normalmente é melhor de comprar na internet, que dirá numa loja física num espaço caro. As pessoas não querem ter o trabalho de andar, se esforçar, caçar livros, apurar preços. Lá não é necessariamente um passeio no parque, há milhares de pessoas que estão lá pelo mesmo motivo que você e uma delas pode conseguir o que quer antes de você se você não se esforçar. Percorrer pelo menos dois pavilhões. Aguentar fila pra entrar na Comix, ver que tá tudo caro lá e acabar comprando um mangá qualquer só pra não perder a viagem.

Cada um tem determinadas expectativas e preparações pra esse evento, que ganha proporções de Copa do Mundo, só que ao mesmo tempo que é você que faz seu gols de placa, você também morre numa grana e na questão física.

Minha Experiência

Ano ímpar sempre tem esse evento como algo especial. Depois que me livro das obrigações do primeiro semestre, já tento juntar dinheiro para poder gastar lá e achar livros novos, além de buscar livros que sempre namoro, mas nunca levo devido ao preço alto. Claro, com o advento da Estante Virtual, dessas feiras que tem em certas praças, em shoppings e a Amazon com promoções tão boas que às redes nacionais de e-commerce querem quebrar, muita coisa, nova ou antiga, pode ser encontrada num preço agradável.

Ao longo dos anos, meu modus operandi se resume a botar meu tênis mais confortável, pegar minha mochila de viagem, que literalmente cabe um anão e ainda podendo botar um colchonete para que ele fique confortável. Enorme. Na ida ela só vai com uma garrafa d’água e biscoitos, pois a comida lá é historicamente mais cara que a de aeroporto, já vi Mister Pizza(por onde anda?) cobrar 12 reais numa fatia em 2007 ou 2009.

Chegando, eu já percorro os pavilhões, nunca se despreza aqueles stands da entrada, em 2015 foi em um desses que achei a biografia do Mussum por 20 reais, sendo que em qualquer outro lugar estava pelo dobro do preço. É tudo uma questão de garimpar e ignorar em um primeiro momento os lugares de grande nome. Há muito a encontrar, surpresas a  cada pilha de livros com preços promocionais e com a grande vantagem de que, apesar do pavilhão estar lotado, esses lugares não tem a sensação de vazio na vida enquanto uma multidão te esmaga que nem no stand da Saraiva ou o da Intrínseca no auge de Crepúsculo.

A mochila gigante vai enchendo ao longo do dia enquanto figurinhas fáceis desse evento são reconhecidas. Meu ideal é comprar apostas e livros desejados em preços baixos. Eventualmente comprar algo mais barato em lugares notoriamente caros, como a Devir. E pra fechar o ciclo, um livro notoriamente bom e desejado, com um desconto apenas razoável, mas ainda assim o melhor que você verá em sua vida pra esse livro. Meu exemplo pra essa categoria é a obra prima de Will Eisner, Nova York: A Vida na Cidade Grande. Um livro nunca encontrado abaixo de 50 reais, em dias ruins somente encontrado por pelo menos 70. Sempre é um investimento bem feito compra-lo em um preço aceitável. Um livro que imagino estar nessa faixa nessa Bienal é a edição de luxo do Cavaleiro das Trevas, com os dois primeiros volumes da série de Frank Miller. A Cultura, que é notoriamente cara, estava vendendo por 61 meses atrás. Algo bom pode vir aí.

Conforme o cansaço bate, tanto pela andança quanto pelo peso das compras, passa-se pelas lojas grandes, só pra ver se algum desconto por lá que valha a pena(quase nunca tem). Chega o momento de descansar. A essa altura sua garrafa d’água já está quase vazia, lembre de enche-la nos bebedouros perto dos banheiros. E ali estão os biscoitos. O problema é que a essa altura você já está se arrastando em vida, precisa de algo que além de alimentar, te aqueça de tal forma que a sua determinação voltará. Assim, você fará o que não é o recomendado, mas acaba sendo o necessário: ir aos food trucks. São muitas opções de comida, será difícil achar uma mesa vazia ou o melhor custo/benefício. Sempre acabo indo comer um hamburger, mas existem várias opções, até mesmo de almoço. Não se engane e já separe grana extra para isso. Os biscoitos são para se recompensar depois de um longo dia, isso já no ônibus, voltando pra casa.

Os Caça Autógrafos

Um fenômeno que tive mais contato desde que entrei na faculdade é o das pessoas tão fãs de determinados autores que acampam no entorno do Riocentro na madrugada para garantir um lugar na fila. Os autores gringos tem a noção do que encontrarão quando vem pra cá e se deparam com o amor em forma de fanatismo, choro, histeria e caos mental que a galera tem nessas horas? Não, eles ficam apavorados, mas gostam. Jojo Moyes deu entrevista quando esteve aqui falando que nem seu marido a amava tanto assim.

Essa galera que vem autografa pelo menos 1000 livros enquanto estão por lá, nem todos conseguem atingir a glória, aos que falharam no sonho, só restam as lágrimas no ônibus, a história triste e a esperança de dias melhores. Se eu já vi isso acontecendo por causa de Nicholas Sparks, imagine o dia que a moça de Cinquenta Tons de Cinza aparecer lá, todas aquelas senhoras acampando na porta com livros e DVDs, a tarde de autógrafos ficará a uma cafeteira e um bolo de fubá de virar um gigantesco chá da tarde, de onde E.L. James sairá ouvinte da Super Rádio Tupi e cheia dos macetes pra quando for ao Aniversário Guanabara, as quais usará na Black Friday e lançará Cinquenta Tons de Desconto, a primeira pornografia barata de descontos.

2015 foi divertido porque Youtubers vendiam livros como se fossem gente grande, sendo que alguns nem gente são. Seu fãs morreram em 40 reais em livros que foram os mais vendidos naquela época e hoje em dia são vendidos por 2 reais ou usados como calço de mesa quando juntos, pois são sempre muito finos. Como se causava um estouro de boiada na Bienal e abria espaço pra passar? Você gritava que a Kéfera estava prá lá e saía da frente, ou o estouro da manada de fãs te mataria, que nem rolou com o Mufasa em O Rei Leão. Gente fanática é divertida de usar. Claro, nem todo mundo é fã sem discernimento, alguns são só dedicados, por exemplo, Madame Vietri, a co-fundadora dessa plataforma onde escrevo, estará numa dessas filas pra pegar autógrafos de uma moça chamada Jenny Han, que aparentemente terá um filme virando livro.

Pra finalizar, pela primeira vez em anos eu fiz uma lista de coisas pra comprar enquanto compro novidades, apostas e promoções. Quero focar em autores ou temas que quero ler sobre, além de poder falar sobre eles nesse blog. Eis parte da lista(até 25/07/17) e uma breve descrição:

Fama e Anonimato - Gay Talese
Um dos grandes heróis do jornalismo. A pessoa que cria um texto histórico apenas com o fato de Frank Sinatra estar resfriado e não poder cantar. O homem que deu esporro elegante na Flip pelos jornalistas estarem desleixados, conforme Allan Sieber registrou. Tentarei comprar lá antes de apelar pra Estante Virtual.

Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal - Ricardo Alexandre
Há duas biografias do Simona no mercado, eu li muito das duas de graça na boa Nobel e posso afirmar que essa é a mais completa e emocionante, em especial em uma passagem com Roberto Carlos. Achei cara mesmo com o desconto na última Bienal, torço pra que o pessoal da Globo Livros tenha abaixado o preço além do desconto habitual que dão no stand.

Cosa Nostra no Brasil - Leandro Demori
Demori foi uma das mentes por trás do Braziu, um dos melhores sites existentes tratando de política. Pelo que pude acompanhar ao longo dos anos, ele é especialista em assuntos italianos, além de fazer a matéria explicando porque não temos o trem bala que nos foi prometido anos atrás. Nesse livro ele fala sobre Tommaso Busecetta, mafioso que passou temporadas no Brasil e a partir daí explorar a história da máfia. É um livro que acredito poder traçar um paralelo com Morcegos Negros, de Lucas Figueiredo.

Qualquer um do Neil Strauss
Dele eu tenho Fama e Loucura, que pega trechos certeiros de entrevistas com celebridades e traça um paralelo com suas vidas, e de forma mais importante, com a morte. Um livro que comprei pelo preço original no lançamento e depois comprei pra presentear por um terço desse preço. Também tenho Como Fazer Amor Como Uma Porn Star - Um Alerta, onde Jenna Jameson conta sua história de vida, com altos e baixos, bem melhor do que pode soar, um insight honesto sobre a indústria adulta e seus elementos humanos. Eu compraria qualquer livro vindo dele, e não há maior confiança que poderia ter com algum autor.

Roberto Carlos em Detalhes - Paulo César de Araújo

Paulo César venceu a parada no STF, agora se pode fazer biografias não autorizadas e Roberto Carlos foi levemente desmascarado por sua mesquinharia, a ponto de novos casos surgirem. Araújo lançará o terceiro sobre RC em outubro, fora de alcance da Bienal, mas o que eu realmente queria era poder comprar o livro da discórdia, que hoje está a mil reais no paralelo e sendo vendido livremente em feiras do livro portuguesas. Quero comprar esse livro pra poder dar os devidos direitos autorais a quem merece, mas acho que esse livro só sai se um certo Rei morrer, e isso pode demorar, além do fato de que não quero torcer pela morte dele só pra ler um livro.


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