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MÚSICA | TIM MAIA 75 ANOS

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

As músicas nunca saíram de moda, sempre há alguém as regravando, além da fase renegada pelo artista ser exaltada tanto pelos críticos locais quanto pelos especialistas estrangeiros. Seria clichê vir aqui e falar de sua trajetória, todos sabemos, muito por causa da excelente biografia que Nelson Motta fez em 2007, dela tivemos como legado um filme ruim, que foi picotado e editado quando transmitido pela Globo, um musical de teatro (o qual Tim daria um esporro enorme no som do teatro) que nos proporcionou Tiago Abravanel.

Clichê maior ainda seria vir gritar o óbvio, que sua discografia foi brilhante de 1970 a 1978, quando seus discos eram mais voltados pro funk e menos para o adulto-contemporâneo (e eventualmente pra músicas de corno). Até porque coisas boas surgiram depois desse período, Descobridor dos Sete Mares é de 1983. Nuvens é de 1982.

Do que falar, sendo eu uma pessoa que cresceu ouvindo muita coisa dele e depois de velho pesquisou o resto, poderia falar hoje? Sobre o CD que me iniciou nessa jornada em 1998, seu melhor e mais completo registro ao vivo, também um dos melhores da história da Música Popular Brasileira. O Ao Vivo, de 1992.

Conforme Nelson Motta conta em Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia (2007) e depois em As Sete Vidas de Nelson Motta (2014), o álbum foi um milagre de vendas no ano de 1992, bombardeado pelas duplas sertanejas, que eram consideradas a trilha sonora do governo Collor. Os artistas da MPB começaram a perder espaço nas rádios e gravadoras, alguns se dedicaram à carreira internacional, outros foram para a briga. Lulu Santos destilou seu ódio de forma histórica no Faustão contra a música sertaneja, algo que causa rusgas até hoje. Nelson Motta também reclama de forma veemente, conforme se vê nos livros citados acima e em Noites Tropicais (2000).

Seu único investimento enquanto diretor artístico da Warner foi comprar as fitas de um show de Tim Maia no Olympia, em São Paulo por 15 mil dólares. Depois de meses ajeitando detalhes do show, consertando vozes e instrumentos, fazendo uma produção impecável com tudo que Tim queria, estava pronto. No que o álbum foi lançado, o cantor foi à imprensa reclamando de tudo e todos, no seu estilo mais característico. Motta se enfureceu com a cafajestagem e respondeu com uma dura carta, falando da ingratidão. No dia seguinte, Tim mandou a carta aos jornais, num típico pedido de desculpas. Meia hora depois, os deixaram de “discutir como duas velhas na feira” e a paz se instalou novamente.

Mas e o álbum? É tão bom assim?

Em 1992 os abusos com álcool e cocaína continuavam, com isso, a voz estava ficando rara. Ainda assim a gravação é impecável, a banda Vitória Régia sempre afiada e segurando nos vocais quando Tim deixa para o público cantar os refrões, sua tática para a voz durar até o fim do espetáculo. Por ser o começo da década, tem uma parte do show onde ele canta músicas do Clássicos da Bossa Nova (1990), que ganham nova vida em sua voz, em especial a versão em inglês de Garota de Ipanema.

A maior parte de seus clássicos está ali, sempre alternando entre o “mela cueca” e o que “balança o esqueleto”. Paixão Antiga está melhor aqui do que na versão original. A versão de oito minutos para O Descobridor dos Sete Mares apresentando a banda é impressionante. Curioso é que o som aparentemente estava bom, não houve a necessidade de pedir “mais agudo, mais retorno, mais eco, mais tudo!”. E tal qual um ciclo, o disco começa e termina com Vale Tudo.

É um CD fácil de encontrar nas lojas por um preço baixo. A Cultura geralmente o vende por 10 reais em promoções, a Americanas certa vez chegou a vender por 5 em uma liquidação de MPB. No Spotify é possível achá-lo aos pedaços, uma vez que sua discografia é complicada via streaming. Ainda assim é uma compra altamente recomendada.

Há outras duas opções ao vivo vindo dele. O Ao Vivo 2 (1998) é um registro do show de 1997 que virou especial para a Rede Mulher e depois DVD lançado pela Paradoxx Music, hoje raridade entre colecionadores e mais fácil de se achar na internet ou no camelô. É aquele onde entre outras coisas ele conta de sua vida e de como ele lança sua candidatura a senador. Enquanto show, a banda é boa, mas a voz já foi embora, é um contraste brutal com o Ao Vivo de 1992.

Em 2007 foi lançado o Tim Maia In Concert, com o registro do show comemorativo de 30 anos de carreira no Hotel Nacional, em 1989. A banda habitual se juntou a uma orquestra, totalizando 30 integrantes. A voz está melhor do que no disco de 1992 e há mais animação vinda de Tim. O melhor registro ao vivo de Gostava Tanto de Você está aqui. Além de uma inesperada e fascinante versão de Baby. Parte do show foi transmitida no especial feito pela Globo no mesmo ano (e reprisado no dia de sua morte). O problema aqui é que o registro é incompleto, por isso não o escolho como o melhor, mas a compra é altamente recomendável, geralmente o preço é baixo.

Em outro momento, virei aqui para abordar seus álbuns do final de vida, mas por enquanto essa é a colaboração que posso dar aos seus 75 anos.

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