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O ESPECIAL DE NATAL DE ROBERTO CARLOS

sábado, 23 de dezembro de 2017

Roberto Carlos. Para a minha geração ele acaba sendo um artista meio folclórico, que sempre aparece no Natal fazendo basicamente o mesmo show de Natal, com um ou outro convidado diferente. Os jovens sabem basicamente que ele existe, sabem as músicas  mais clássicas porque fatalmente os pais ou avós ouviam pela casa. É o maior vendedor de discos da história do país. Quando ele morrer, esse país ficará absurdo.

Como o seu legado poderia se tornar atraente para novas gerações e até mesmo para as antigas, uma vez que seu lançamento de músicas novas, que já foi a maior tradição do país, está irregular desde 1996? Acertou quem pensou em uma biografia, mesmo porque ele nunca foi um querido da crítica especializada, ele simplesmente sempre esteve lá fazendo o dele e embalando o povo, não teve a aclamação que Chico ou Caetano tiveram e nem precisou.

Entra em cena Paulo César de Araújo, um historiador que passou 15 anos pesquisando sobre a música brasileira, o que a princípio originou a obra prima Eu Não Sou Cachorro, Não, que defende a importância da música cafona e seus autores. 

Para seu próximo livro, uma biografia sobre Roberto Carlos e o impacto, a influência que teve na música e cultura brasileira em várias escalas, sendo assim entrevistou músicos, cantores, compositores, amigos, família, pessoas da cidade natal, etc. Uma pesquisa extensa e com sacrifícios. A única coisa que faltou foi a entrevista exclusiva com o biografado, algo que foi tentado pelo mesmo período de tempo das pesquisas do livro. Acabou sendo lançado sem isso, mas não deixou de ser elogiado pela crítica e pelos fãs. O Rei voltava às rodas de discussão e sua obra era lembrada, o cenário parecia perfeito para todos, exceto para a pessoa mais improvável.

2017 marca os 10 anos que Roberto Carlos processou e conseguiu com que a biografia Roberto Carlos em Detalhes fosse proibida no Brasil e ainda conseguiu confiscar as 10 mil cópias disponíveis nas lojas, que até hoje estão guardadas em um depósito na cidade de Diadema-SP. A proibição da biografia causou uma polêmica gigantesca sobre a liberdade de expressão e seus limites, a imagem de Roberto Carlos se sujou de forma crescente. Paulo Coelho escreveu uma coluna na Folha de São Paulo no dia seguinte, diretamente da Dinamarca, reclamando da decisão jurídica, o que causou uma rara salva de elogios da imprensa nacional ao autor.

Eu estou escrevendo isso porque o desenrolar da história é fascinante e eu sempre tive a impressão de ter escolhido O Réu e O Rei: Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes como meu primeiro livro a ser resenhado no Meraki, até achei o texto da época em meus arquivos, mas não a postagem. Estive falando também com algumas pessoas de minha faixa etária e elas não sabiam dessa história. O seguinte diálogo se seguiu mais de uma vez essa semana:
Eu: Vou aproveitar que ela vai pra Portugal em breve e pedir a ela que me compre um livro que está proibido aqui no Brasil.
            Outra Pessoa(surpresa): É? Qual livro?
           Eu: Ah, a biografia do Roberto Carlos, tem uns 10 anos que tá proibida e lembrei que ainda em Portugal essa proibição é ignorada.
          Outra Pessoa(desapontada): Ah, a dele? Eu achando que era um livro importante… Eu nem sabia que estava proibida, por que que foi proibida?
A partir daí eu explicava de forma resumida, mas posso desenvolver um pouco mais aqui sobre a proibição e seu desenrolar, que no fim de tudo rendeu uma decisão do Supremo Tribunal Federal determinando que biografias não autorizadas não precisam da autorização dos biografados ou de seus herdeiros para acontecer, nem de indenização para os mesmos. Mas eu suponho que por ser Natal, essa época mágica, eu posso desenvolver mais um pouco nesse maravilhoso canhão de audiência que é esse site.

Mesquinharia, ganância e o dia que as piadas de advogados fizeram sentido.

Eu confesso que não acompanhei tanto na época a confusão inicial da proibição e do julgamento, que são reconstituídos em O Réu e O Rei, que é a continuação da biografia proibida. Nesse livro dessa vez o biografado é o próprio autor, que conta sua vida, traça paralelos com a vida e carreira de Roberto Carlos e com a música brasileira, que além de objeto de admiração, se torna objeto de estudo. São narradas entrevistas com os maiores nomes da música brasileira, sejam os da MPB, sejam os alternativos(ou popularescos, para alguns). E em meio a isso, os 15 anos de tentativas de conseguir uma entrevista de Roberto Carlos para seu projeto. Tudo isso engloba um primeiro momento do livro, interessante por mostrar os bastidores de pesquisas e entrevistas, algo sempre útil para aficcionados por biografias ou pesquisadores em geral.

As escrituras proibidas. Segundo Roberto Carlos, quem as escreveu poderia ir pro inferno

Então houve uma grande repercussão positiva, em pouco tempo o livro galgou o topo das listas de mais vendidos, superando O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha. Com a mesma velocidade que teve sucesso, conseguiu enfurecer o Rei, algo muito raro de acontecer. Na primeira entrevista após o lançamento do livro, Roberto Carlos deixou de lado seu tom de voz calmo e foi ao ataque, alegando que o livro era mentiroso e sensacionalista, não dando ouvidos aos argumentos dos jornalistas presentes à coletiva.

Vale ressaltar aqui que Roberto já esteve nos dois lados da censura antes, algumas músicas tiveram que ser reescritas na época da ditadura por serem consideradas picantes demais. Por outro lado, ele processou o ex-mordomo que escreveu um livro descrevendo aventuras de seu ex-patrão, em especial as amorosas. O livro foi apreendido e incinerado. Em 1983, o jornalista Ruy Castro foi processado por escrever um artigo sobre o cantor e suas conquistas amorosas na revista Status, mesmo usando pseudônimo. O advogado que venceu essas causas, Saulo Ramos, foi consultado para o caso da biografia e disse que:
“(...) É uma biografia perfeita. Não tem um ataque moral contra o Roberto. Ele me consultou e eu o aconselhei a não tomar nenhuma providência. Eu recusei a causa e ele procurou outros advogados”
Assim, 18 advogados de dois escritórios foram contratados para montar algo chamado pelo empresário Dody Sirena de “plano de guerra”. Os argumentos eram patéticos, continham algumas mentiras gritantes, alterações no texto do livro para piorar o lado do autor. O Réu e O Rei desconstrói os argumentos, minhas partes preferidas são a reclamação de que o biografado nunca foi consultado quanto ao livro e que pelo seu lançamento ser perto do Natal, tiraria vendas do tradicional lançado nessa época do ano. E um pedido de indenização sensível: quinhentos mil reais diários por cada dia que o livro continuasse circulando. E um detalhe fundamental, o cantor nunca chegou a ler o livro.

Aí houve o julgamento, devidamente narrado no livro. O juiz era absurdamente parcial, começou ameaçando fechar a editora, que foi gradualmente recuando durante o restante da sessão, deixando o autor lutando sozinho. Num mundo sério, o caso estaria encerrado quando Roberto Carlos afirma que os episódios de sua vida pessoal não tinham problema de estar exaustivamente em revistas e jornais porque “(...) Livro é documento, algo que fica pra sempre” e um de seus advogados completando que revistas e jornais são rapidamente descartáveis. Qualquer pessoa que tenha estudado a nível universitário fez pesquisa com normas da ABNT e sabe que isso é mentira, especialmente advogados, que vivem de pesquisar coisas e achar inconsistências. Se fosse assim, as bibliotecas não teriam uma seção de pesquisa de jornais antigos.

Mas o dia terminou com os livros sendo apreendidos e o autor proibido de falar sobre a vida pessoal de Roberto Carlos. E com o juiz distribuindo um CD de sua autoria a todos os presentes, pois como se não faltasse mais nada, o juiz era cantor/compositor.

Desde então a barra pesou pro cantor, Paulo Coelho reclamou no dia seguinte, a imprensa bateu mais forte, os livros foram recolhidos e poucas pessoas do meio artístico o defenderam abertamente(Maria Bethania, Jorge Vercilo, Zezé di Camargo e Gilberto Gil, na época Ministro da Cultura). A história virou assunto constante, pois muita gente não entendeu nada(o caso das biografias nunca foi devidamente explicado na TV Globo, boa parte ficou sabendo de forma rasa) e porque eventualmente virou uma mácula na biografia do artista.

Além disso, aumentou o interesse das pessoas na biografia, tudo que é proibido fica mais fascinante. É por isso que hoje em dia o livro é encontrado no Brasil por no mínimo por 150 reais e no máximo por 1500. Além de ter se espalhado na internet, onde a princípio se espalhou por correntes de e-mail, fugindo do controle do batalhão de advogados.

Poucos anos depois, o livro proibido foi encontrado sendo vendido em grandes livrarias de Portugal, o qual ainda é, atualmente com a edição original e uma em português de Portugal. Mais ainda, foi visto em uma feira de livros em Lisboa recentemente por 5 euros. Oficialmente a editora Planeta cessou as atividades com o livro a partir do final do acordo de 2007. Extraoficialmente...

Esse show de horrores rendeu muitas piadas, questionamentos, momentos de brilhantismo de Agamenon Mendes Pedreira e também o projeto de lei para corrigir a questão das biografias não autorizadas. Estava bem encaminhado, mas deputados que temiam ter biografias a seu respeito feitas buscaram apoio e conseguiram atrasar o projeto.

Procure Saber(quando ficar quieto)

Roberto Carlos aprendeu que sua presença nos lugares faz com que as coisas se resolvam a seu favor, por vezes de forma rápida. Assim, ele começou a botar o pé na rua e militar a seu favor com pessoas poderosas, primeiro com a agora presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, que na época era a relatora da ação que julgava a questão das biografias. O curioso é que ele fez essa visita durante aquelas revoltas dos 20 centavos em 2013.

Um mês depois, ele foi com outros músicos conversar com a presidente para que ela aprovasse uma lei sobre arrecadação musical, pediu meia hora em particular com ela e foi prontamente atendido. Essa meia hora foi para reclamar da biografia não autorizada e pedir pra barrar uma eventual lei que o prejudicasse. Depois, foram ao Senado fazer uma força para que a lei que queriam fosse votada e aprovada naquele dia, o que conseguiram.

Antes de todo o caso da proibição, Roberto já prometia escrever sua biografia, mas sempre alegou falta de tempo, apesar de alegar ser “(...) dono de sua história, que é seu patrimônio, por isso ninguém deveria escrever sobre”. Como prova de que as pessoas não aprendem, no mesmo ano de 2013 ele ameaçou outra autora de processo, sendo que dessa vez ela escrevia sobre a moda influenciada pela Jovem Guarda, além do desenvolvimento dos meios de comunicação e da formação de consumidores. Novamente nem leu o livro, viu o convite que recebeu para o lançamento, viu que não autorizou o livro ou sua caricatura na capa e processou alegando o mesmo que o outro livro, invasão de privacidade, etc. Se ele tivesse lido um pouco, veria que o livro não tratava disso e mais ainda, veria que Wanderléia escreveu o texto da contracapa parabenizando o projeto.

A situação já não era boa pra processar alguém de novo, aí quando processa, manda uma dessas contra um livro acadêmico. A dúvida que fica é sobre a inteligência, a falta de bom assessoramento ou sobre o tamanho da mesquinharia envolvidos. Os ameaçados de processo partiram pro ataque, Jovem Guarda: Moda, música e juventude foi um livro escrito por Maíra Zimmermann e originalmente uma dissertação de mestrado feita com a ajuda de uma bolsa concedida pela FAPESP(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Se Roberto fosse processar a autora, teria que processar o estado de São Paulo. Assim, o cantor recuou, jogando a culpa nos advogados, sendo a Veja o desmentiu. E lá se foi a imprensa, exceto a TV Globo, a cair de pau em cima dele.

Então entra o Procure Saber fechando com o Roberto Carlos na questão das biografias. Assim, tivemos gente que foi censurada, exilada na ditadura, apoiando uma censura intelectual no país e sendo objeto de espanto da imprensa, que sempre admirou artistas como Djavan, Caetano Veloso, Chico Buarque, etc. Paula Lavigne foi além, reduzindo leitores e autores de biografias a fofoqueiros e afirmando que proibir a comercialização de biografias não autorizadas era uma ameaça às vendas, não à liberdade de expressão. Então tá. Nem tentou disfarçar que era pelo dinheiro a entrar, que foi o motivo de alguns artistas de fora do grupo apoiarem em um primeiro momento.

No fim das contas Chico Buarque falou que nunca foi entrevistado por Paulo César de Araújo, que o desmentiu ainda naquele dia, com o vídeo da entrevista. Paula Lavigne falou mais absurdos na TV, a imagem do grupo desgastou rápido e Roberto Carlos demorou a se pronunciar em defesa de quem o ajudou, quando o fez já foi com um discurso mais ameno que o resto do grupo, que se sentiu traído e o retirou.

De que adiantou tudo isso na prática? A serem divulgadas notícias de como o “Rei” pode ser vaidoso, como quando processou um corretor de imóveis chamado Roberto Carlos por dar esse nome a seu empreendimento. Felizmente ele perdeu. E no que diz respeito ao caso da autorização prévia para biografias não autorizadas, não adiantou ir na casa de Cármen Lúcia, pois dois anos atrás a derrota foi unânime, 9 a 0, e eu lembro de ter acompanhado isso no twitter e não ter ninguém pra falar sobre isso fora dele, pois ninguém estava inteirado sobre o assunto. Talvez por isso eu tenha escrito sobre esse assunto na minha primeira postagem no Meraki.

Mas se a autorização não é mais necessária, por que é que a biografia da polêmica não volta às livrarias? Porque o acordo foi feito antes da resolução do STF, assim, fica valendo pra próxima pessoa que lançar um livro. O livro só volta às livrarias quando Roberto Carlos morrer, eu não quero baixar o livro, eu quero pagar pelo livro. Roberto Carlos está saudável aos 76 anos, não vai morrer tão cedo. A opção é pedir que Fernanda Vietri me traga o livro de Portugal pra que eu seja clandestino em meu próprio país.

Agora, vou me vestir de branco e azul e tacar rosas em vocês depois de cantar Jesus Cristo, pois ainda é um final de especial do Roberto Carlos. Se virem uma luz depois de ler esse texto, não a apaguem, pois essa luz, só pode ser Jesus.

E quero ressaltar no fim que por mais que eu reforce e divulgue esses pontos, os livros que li sobre ele só me fazem aumentar meu respeito por ele enquanto artista e até mesmo enquanto músico, mas isso não pode passar em branco.

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