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RINGO STARR: "TIME TAKES TIME" + "GIVE MORE LOVE"

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

2017 marca os 25 anos do retorno de Ringo Starr aos álbuns de estúdio. Após um hiato por quase toda a década de 1980 devido a drogas e ao fato que ninguém queria gravá-lo após discos inconstantes e com baixas vendas. Quando finalmente houve um ótimo, era tarde demais e só foi lançado em lugares como Alemanha, México e Brasil. As coisas melhoraram em 1989, quando após sair da reabilitação, ligou para amigos músicos e montou a Ringo Starr and his All Starr Band, onde todos tem músicas famosas e se revezam tocando, um projeto infalível e que o deu relevância.

Assim, capitalizando esse sucesso, era hora de gravar algo novo. Os críticos dizem que o álbum é a sua renascença, o que faz sentido, uma vez que a partir daí ele começou a encontrar um padrão em seu som, se deu ao trabalho de experimentar produtores e compositores, além de seguir com sua política habitual de convidar amigos músicos que estivessem disponíveis por perto para colaborar com o disco. Ringo co-escreveu três canções.

Infelizmente, por mais que o álbum fosse bom e uma turnê da All Starr Band fosse feita para promover o álbum, 1992 foi o ano da ascensão do grunge, Nirvana estava mais relevante do que nunca, rocks mais suaves como esses eram ignorados pelo público, ainda que elogiados pela crítica. E é um grande álbum de retorno, infelizmente por não ter vendido muito, seu próximo só seria seis anos depois.

 Os destaques são Weight of the World, Don’t Go Where The Road Don’t Go (ambas foram cantadas em turnês da All Starr Band, a segunda de 1992 a 2003, quatro turnês diferentes) e In a Heartbeat, escrita por Diane Warren, que mais tarde ficou célebre por escrever Un-break My Heart e I Don’t Wanna Miss a Thing. O tom do álbum é leve, tratando de amor, nostalgia e com um estilo parecido com o dos anos 60, devidas experimentações foram para álbuns futuros.

Give More Love

25 anos depois, a carreira solo está estável, lançando mais discos que Paul McCartney, por vezes discos melhores. A crítica não tem o que falar mal dele, pois a sequência de bons álbuns ou ao menos ótimas músicas neles é incontestável. O estilo de bateria continua inconfundível.

Há uma fórmula para os álbuns com um ou outra variação que geralmente funciona, incursões no hard rock, quatro álbuns seguidos com alguma música referenciando Liverpool, os últimos dois com a paixão recente de Ringo pelo reggae, a ponto de serem os singles dos respectivos álbuns, além das canções sentimentais, sejam pela morte de alguém ou não (George Harrison foi homenageado em dois álbuns seguidos), músicas exaltando paz e amor (e vindo dele soando sinceras), além de músicas referenciando canções antigas dos Beatles (onde Postcards From Paradise foi o cúmulo, seguida por Choose Love).

O velho esquema de trazer amigos para o álbum nunca esteve tão forte, até por todo o disco ser gravado no home studio de Starr, basicamente se você o visitava e sabia tocar um instrumento, estava dentro do álbum. Membros antigos e recentes da All Starr Band estão presentes. Steve Luthaker, do Toto e na banda desde 2012, aparece em 3 faixas com a guitarra. Peter Frampton, da turnê 97/98, aparece em algumas faixas. Joe Walsh, turnês 89 e 92, além de cunhado e produtor do Old Wave, aparece em algumas faixas. Edgar Winter, de turnês 2006 a 2011, reaparece em duas faixas. No baixo, temos apenas Nathan East (baixista de Eric Clapton e Michael Jackson), Don Was (que co-produziu Time Takes Time) e Paul McCartney. Por fim, membros da antiga banda do auge criativo da década passada colaboraram em algumas faixas. Uma combinação ideal.

Mas toda essa combinação deu certo na prática? No geral, sim. É melhor que seu antecessor, Postcards From Paradise? Não, mas não é um demérito, pois ainda assim é mais consistente que seus esforços do começo da década (Y Not e 2012), tem ótimas músicas e algumas boas, ainda que um filler ou outro fique irrelevante. Felizmente para o álbum, sua versão deluxe tem reimaginações de músicas clássicas de seu repertório, além da feliz surpresa de rever Can’t Fight Lighting, um ótimo lado B do Stop and Smell the Roses. Entretanto, tirando esses remakes, baseando-se nas faixas originais, Postcards é um álbum superior, com mais faixas memoráveis. Ainda assim, Give More Love é o segundo melhor álbum desde Choose Love, que foi seu mais recente ápice criativo e musical, o que é um mérito.

O álbum, tal qual todos de Starr desde 1981, abre com uma boa faixa, dessa vez We’re on the Road Again, um rock que poderia abrir os shows da All Starr Band. Laughable é uma boa música, mas apenas isso, nada memorável. Show me the Way é um dos pontos altos sentimentais do álbum, pontuado pela guitarra de Luthaker. Speed of Sound é um bom bom rock, com destaque para Peter Frampton no talkbox. Standing Still não é marcante, mas é inofensiva. King of the Kingdom é o reggae mais fraco entre os que gravou, o que não o faz ruim, somente em comparação, por outro lado, Edgar Winter brilha no sax. Electricity é um bom rock. Originalmente o disco seria country e produzido por Dave Stewart (do Eurythmics e produtor do Liverpool 8), a música que sobrou desse projeto foi So Wrong For So Long, que é bonita, mas me deixa aliviado por todo o álbum não seguir esse estilo. Shake it Up é um bom rockabilly que funcionaria melhor ao vivo, mas a cota de rockabilly no show já é preenchida por Matchbox. A faixa título fecha o álbum, é notável, bem bonita, sentimental, um bom encerramento pro disco normal, ainda que em comparação a outros encerramentos, seja o mais fraco desde 1998, com I’m Yours.

As faixas extras são um presente ao público e ao álbum. O segundo remake de Back Off Boogaloo, o primeiro em 36 anos, é agradável e usa trechos da demo original da música. Don’t Pass Me By é deliciosamente preguiçosa e cita Octopus’s Garden. Tanto essa como Photograph foram gravadas com uma banda chamada Vandaveer, foi bom ver essas músicas com uma banda nova, pois deram uma vitalidade nova a quem já a escutou em mais de 10 variações diferentes da All Starr Band e poucas variações. You Can’t Fight Lighting é uma feliz surpresa. A original era um experimento interessante que na prática só pegou no tranco quando entravam os metais, nessa versão com a banda sueca Alberta Cross (onde ele encontra essas pessoas?), a música se mantém consistentemente interessante.

Qual o veredito? Onde Give More Love se encaixa no Tratado de Starkey, onde avaliei toda sua discografia pós-1992? Em um patamar médio-alto, acima de quase tudo da década de 2010 (Y Not e 2012), de Liverpool 8 e talvez do esquisito Vertical Man. Um álbum altamente respeitável, espetacular para quem tem 77 anos se mantém ativo e relevante. É bom ver que 25 anos após Time Takes Time, Starr tem uma identidade musical definida e uma carreira estável.


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