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REVIEW | A FORMA DA ÁGUA

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

SINOPSE

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

REVIEW

Durante uma entrevista no Jimmy Kimmel Live, em dezembro do último ano, Guillermo del Toro foi questionado a respeito da seriedade do romance entre uma mulher e um homem anfíbio, afinal, existe uma linha tênue entre o belo e o ridículo, segundo o mesmo. Com isso em mente, del Toro respondeu, de maneira objetiva e mantendo o bom humor, que "failure and success live next door to each other and they have no numbers at the door; you just knock". Agora, faltando um mês para a premiação mais importante da indústria cinematográfica, podemos concluir que del Toro certamente bateu na porta certa, já que "A Forma da Água" pode receber um total de treze estatuetas. 

Considerado o favorito ao prêmio de "Melhor Diretor" - categoria na qual foi indicado e premiado também no Globo de Ouro - Guillermo del Toro constrói uma narrativa com base muito simples: o romance entre duas criaturas incompreendidas. Elisa (Sally Hawkins), que trabalha como faxineira numa organização do governo, é uma mulher que teve as cordas vocais danificadas quando ainda criança, o que a impede de se comunicar através palavras sonoras, e a Criatura (Doug Jones) que, num primeiro plano, é nada além disso; um ser enigmático cuja capacidade de entendimento e comunicação é um mistério. 


Elisa e Criatura se aproximam de forma quase instantânea, unindo curiosidade ao fato de ambos estarem à margem da sociedade, e o relacionamento entre os dois se desenvolve de forma sublime e inocente, levando o espectador a mergulhar cada vez mais nos aspectos fantásticos do filme. Porém, apesar de ser uma obra voltada à fantasia, del Toro não deixa de abordar questões pertinentes à época na qual o filme é ambientado.

Em 1962, com a Guerra Fria e a Corrida Espacial, os Estados Unidos viviam um período de grande tensão política, traduzida no "american way of life", que procurava destacar as diferenças entre o país e a URSS, ressaltando a superioridade americana e gerando forte patriotismo. Em "A Forma da Água" dois personagens específicos refletem esse período, são eles Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), um espião, e Strickland (Michael Shannon), um agente do governo americano e também o vilão da narrativa. 

Michael Shannon, indicado como "Melhor Ator", cria um vilão que não somente está ali para impedir que mocinha e mocinho fiquem juntos, mas sim um homem que é desprezível em sua própria rotina com a família. É através desse personagem que assuntos como o racismo e o machismo presentes na época são abordados, não de forma ampla, mas sim de maneira sutil.

Em um vídeo de making of Guillermo del Toro fala sobre como ele não escolhe seus atores simplesmente pela atuação, mas sim por seus olhos. E é interessante como todos os personagens presentes dialogam através do olhar, especialmente Elisa e Criatura. Zelda (Octavia Spencer) e Giles (Richard Jenkins), melhores amigos da protagonista, são expressivos e longe de serem caricatos, destacando-se na narrativa e acrescentando algo a mesma, cada um exercendo papel indispensável ao longo do roteiro.

"A Forma da Água" é, de fato, uma história fantástica com elementos que podem, por muitos, não serem considerados originais - afinal, já vimos a bela se apaixonar pela fera -, mas que são abordados de forma completamente nova e essa diferença se dá nos detalhes que vão desde a evolução de figurino e paleta de cores, que refletem a confiança ganha pela personagem, até a trilha sonora constantemente mesclada com as atitudes do elenco. Del Toro alegou ter se inspirado na obra "O Monstro da Lagoa Negra" para a criação do filme e do conceito da criatura, mas isso não o torna um remake de forma alguma. Na verdade, a produção, considerada a melhor do diretor desde "O Labirinto do Fauno" é inteligente, prática, bela e ainda reverencia alguns aspectos clássicos do cinema, tornando-a até mesma nostálgica.


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