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MÚSICA | BILLY JOEL - THE STRANGER (1977)

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O conceito de obra prima na música hoje em dia pode ser usado indevidamente para qualquer coisa minimamente relevante e que aparente ser diferente. Se for injustiçada então, melhor ainda. Taí Kendrick Lamar com aquele álbum que perdeu o Grammy e causou revolta numa dúzia de pessoas no twitter que não me deixa mentir. No ano da graça de 2017, uma obra prima faz 40 anos e é um de meus álbuns favoritos, então será analisado aqui.

The Stranger é o álbum definitivo da carreira de Billy Joel, tanto em vendas como em aclamação crítica. Houveram melhores músicas ou vendas maiores (o Greatest Hits dele é um dos maiores best sellers da história) com o passar dos anos, mas nenhum álbum apresentou uma combinação tão coesa e perfeita de músicas, uma peça musical impecável. Até mesmo músicas que não viraram singles e/ou são consideradas fillers tem grande valor. Por isso, cada faixa será vista aqui.

Seu lado A é um dos melhores da história, comparável com o lado A de Goodbye Yellow Brick Road (1973). Quatro músicas históricas e icônicas. Movin’ Out retrata a vida dos imigrantes tentando ganhar a vida, trabalhando demais pra conseguir sinais de que “subiram na vida”, mas só conseguem dor de cabeça no processo. A canção título foi um grande hit no Japão, tem um assobio característico e uma ótima letra. A seguir, temos Just The Way You Are, uma canção feita para sua primeira ex-esposa (boa parte de suas melhores músicas foram para atuais e/ou futuras esposas). Essa música no Brasil toca razoavelmente nas rádios adultocontemporâneas em sua versão original, mas foi popularizada no Brasil pela voz de Barry White, a ponto de as vezes Joel dizer ao vivo que essa música não foi feita por White. Obviamente depois do divórcio, ele passou a cantar menos a música e até a odiá-la, mas ainda a canta no Japão, praticamente obrigado, mais ou menos que nem Elton John cantando Skyline Pidgeon no Brasil.

A canção que fecha a primeira parte do álbum é Scenes From An Italian Restaurant. Uma obra prima com várias partes distintas, tal qual músicas como Funeral For a Friend/Love Lies Bleeding, Bohemian Rhapsody ou o lado B de Abbey Road, que Billy diz ter se inspirado. Começa com um piano, os metais entram triunfantes, vira um rock com uma pitada de Nova Orleans e volta ao início, fechando o ciclo. É uma das vezes que se pode pode usar a palavra épico para descrever algo sem banalizar a palavra.

E aí chegamos no lado B e na música que boa parte do público desse blog conhece: Vienna. Vocês a conhecem graças a um filme chamado De Repente 30, alguns talvez a conheçam porque Ariana Grande a gravou nos distantes tempos onde eu usava o tumblr. A história de como a música foi feita é interessante e vale contar aqui. Joel reencontra seu pai, que havia deixado a família décadas atrás. Eles se encontram em Viena e estão observando a cidade, Billy nota uma senhora bem idosa varrendo a rua e se pergunta porque ela faz isso. Seu pai então explica que ela se sente útil fazendo algo que beneficia a todos ao invés de só ficar em casa se desperdiçando. Assim surgiu uma música que basicamente diz que para não se preocupar tanto com o amanhã, ele eventualmente chegará. Vienna é o sinal de uma fase de vida, que nos aguarda. Talvez faça algum sentido com o filme, o qual nunca vi.

Only The Good Die Young é um rock perfeito e simples. Originalmente seria um reggae, mas seu baterista fez mudar o estilo por detestar o ritmo. A canção causou polêmica na época com grupos católicos, pois consiste em um jovem reclamando que a moça na qual está interessado o recusa por acreditar que sexo antes do casamento é pecado. As polêmicas causaram um aumento das vendas, pois as pessoas esquecem como essas coisas funcionam. Além do que, se tivessem prestado atenção na música veriam que no fim o jovem não se dá bem. Os únicos vencedores foram aqueles que gravaram a música e aqueles que souberam aproveitá-la sem ver pelo em ovo.

She’s Always a Woman. Outra música para a primeira ex-esposa. Na época ela era sua empresária, que organizou suas finanças e carreira. Uma mulher bem intensa nas negociações, a ponto de seus rivais no empresariado afirmarem que ela não era muito feminina. Na música mesmo é dito que ela é capaz de ferir com os olhos, roubar feito um ladrão, mas nunca cede. E ainda assim, é sempre uma mulher para Joel. Ou seja, ele a ama apesar ou justamente dessas qualidades/defeitos.

Get It Right The First Time é talvez a menos relevante ou lembrada do disco. Isso a torna ruim? Ao contrário. Em um material tão rico no que diz respeito a hits, músicas obrigatórias para se tocar ao vivo e músicas que tem toda uma história e folclore próprio, é sempre bom ter uma música que você acaba redescobrindo eventualmente e fica na mente justamente por ser mais low profile. Um shuffle de qualidade.

Everybody Has a Dream termina com tons épicos, gospel, diria até, o final do álbum. Órgão, coro e uma letra fácil de achar similaridades com Tomorrow Is Today, de Cold Spring Harbor (1971). Foram feitas na mesma época, mas Joel tem o costume de engavetar músicas por anos até encaixá-las em trabalhos mais coerentes. Essa música demorou mais 14 anos para ser tocada ao vivo. E ao fim da música, há uma reprise de 2 minutos da introdução de The Stranger, com assovio, cordas e todo o resto.

Falando em arranjo de cordas, a outra pessoa que cometeu um grande erro com esse álbum foi Sir George Martin. Após anos na estrada, Joel já tinha uma banda de confiança e com músicas novas, queria Martin para produzi-las, sendo o fã de Beatles que era. Martin aceitou, mas não queria trabalhar com a banda de Billy. Assim, a parceria nunca aconteceu e depois do sucesso do álbum, Martin lhe escreveu uma carta dando os parabéns, admitindo que estava errado e que deveria ter considerado trabalhar com a banda.

É um disco altamente versátil, altamente recomendável e o ápice criativo de um artista que deveria ser mais conhecido no Brasil.
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